CONTA E TEMPO
Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta,
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta.
Não quis, sobrando tempo, fazer conta.
Hoje, quero fazer conta, e não há tempo.
Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em fazer conta!
Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo...
quarta-feira, 17 de junho de 2015
António Fonseca Soares --- Conta e Tempo
quarta-feira, 3 de junho de 2015
O essencial é saber ver
"O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender"
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender"
quarta-feira, 27 de maio de 2015
O Beijo ---- Alexandre O´Neill
O Beijo
Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.
Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.
Donde teria vindo! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?
É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.
E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...
Alexandre O´Neill
terça-feira, 26 de maio de 2015
Alexandre O' Neill Há palavras que nos beijam
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Alexandre O´Neill
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Alexandre O´Neill
domingo, 24 de maio de 2015
"Manter-me ligada à vida" --- maria josé franca
"Manter-me ligada à Vida que irrompe à minha volta. Permitir que a felicidade me inunde e caminhar em direção a braços que se abrem. Pedir à Vida mais Vida." Maria José Franca
bAILE do MOULIN de LA GALETTE
Primeiro baile de uma vida
(…)
Isto já faz muito tempo, mas não parece.
Ainda a vejo naquela mesa escondendo as mãos.
Foi um encontro marcado por algo maior.
Nas asperezas das mãos, a maciez do amor.
Eu, que sequer sabia dançar, valsei com ela.
Foi capaz de me conduzir à vida plena de sonhos.
Foi naquele baile, nosso primeiro, que de facto, renascemos.
(…)
Isto já faz muito tempo, mas não parece.
Ainda a vejo naquela mesa escondendo as mãos.
Foi um encontro marcado por algo maior.
Nas asperezas das mãos, a maciez do amor.
Eu, que sequer sabia dançar, valsei com ela.
Foi capaz de me conduzir à vida plena de sonhos.
Foi naquele baile, nosso primeiro, que de facto, renascemos.
Jossan Karsten/Escritor
- Baile no Moulin de la Galette, de Pierre-Auguste Renoir, é uma pintura do século XIX que pode ser encontrada no charmoso Museu d'Orsay, em Paris. Uma das primeiras obras-primas do Impressionismo
- Baile no Moulin de la Galette, de Pierre-Auguste Renoir, é uma pintura do século XIX que pode ser encontrada no charmoso Museu d'Orsay, em Paris. Uma das primeiras obras-primas do Impressionismo
sexta-feira, 22 de maio de 2015
sOLIDÃO f. bUARQUE DA hOLANDA
Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo... Isto é carência.
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar... Isto é saudade.
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes, para realinhar os pensamentos... Isto é equilíbrio.
Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida... Isto é um princípio da natureza.
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado... Isto é circunstância.
Solidão é muito mais do que isto.
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma....
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar... Isto é saudade.
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes, para realinhar os pensamentos... Isto é equilíbrio.
Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida... Isto é um princípio da natureza.
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado... Isto é circunstância.
Solidão é muito mais do que isto.
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma....
Francisco Buarque de Holanda
o melro ---Guerra Junqueiro
O MELRO
O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar d'entre o arvoredo
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre cura abria a porta
Que dá para o passal,
Repicando umas finas ironias,
O melro d'entre a horta
Dizia-lhe: «Bons dias!»
E o velho padre cura
Não gostava daquelas cortesias.
(…)
Guerra Junqueiro
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar d'entre o arvoredo
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre cura abria a porta
Que dá para o passal,
Repicando umas finas ironias,
O melro d'entre a horta
Dizia-lhe: «Bons dias!»
E o velho padre cura
Não gostava daquelas cortesias.
(…)
Guerra Junqueiro
terça-feira, 19 de maio de 2015
Poema de Teresa BALTÉ ----trouxeste-me o deserto
Trouxeste-me o deserto
fiquei a duna depois do vento
atenta ao silêncio
trouxeste-me o absoluto
o que dura por metáforas
de timbre e cores várias
trouxeste-me o inverso
mas igualmente intenso
ou tão surpreende
equilíbrio do extremo
a vida divisou-nos
guardámos as visões
fiquei a duna depois do vento
atenta ao silêncio
trouxeste-me o absoluto
o que dura por metáforas
de timbre e cores várias
trouxeste-me o inverso
mas igualmente intenso
ou tão surpreende
equilíbrio do extremo
a vida divisou-nos
guardámos as visões
tERESA bALTÉ
terça-feira, 12 de maio de 2015
E por vezes David Mourão Ferreira ---- E por vezes
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
quarta-feira, 29 de abril de 2015
Ama as tuas rosas --- Fernando Pessoa
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é maios ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós própios.
Suave é viver só
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Ricardo Reis
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é maios ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós própios.
Suave é viver só
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Ricardo Reis
terça-feira, 28 de abril de 2015
Rosas Bravas ---- Camili Pessanha
Rosas Bravas Camilo Pessanha
Floriram por Engano as Rosas Bravas----- No inverno: veio o vento desfolhá-las...----- Em que cismas, meu bem? Porque me calas----- As vozes com que há pouco me enganavas?----- Castelos doidos! Tão cedo caístes!...----- Onde vamos, alheio o pensamento,----- De mãos dadas? Teus olhos, que um momento----- Perscrutaram nos meus, como vão tristes!----- E sobre nós cai nupcial a neve,----- Surda, em triunfo, pétalas, de leve----- Juncando o chão, na acrópole de gelos...----- Em redor do teu vulto é como um véu!----- Quem as esparze _quanta flor! _do céu,----- Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos? ------ -------------------------------------------------- Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'
domingo, 26 de abril de 2015
Poesia Popular ---- A VIRGEM COLHEU TRÊS ROSAS
A Virgem colheu três ROSAS..........
A Virgem colheu três rosas,
Todas três juntas num pé:
Colheu uma para Ela,
Outra para São José
E outra para o menino
Que é Jesus de Nazaré.
Todas três juntas num pé:
Colheu uma para Ela,
Outra para São José
E outra para o menino
Que é Jesus de Nazaré.
Poesia Popular
Petit Prince---- Saint Exupéry ---- " Eu sou responsável pela minha rosa "
"Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar. "
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