sábado, 27 de fevereiro de 2016

Carlos Drummond Não há falta na ausencia

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus
[braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade, in 'O Corpo'

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

No barco sem ninguém... David Mourão Ferreira

[ David Mourão Ferreira, que faria anos...]
'No barco sem ninguém, anónimo e vazio, 
ficámos nós os dois, parados, de mão dada...
Como podem só dois governar um navio?
Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa...
Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem...
Aonde iremos ter?
— Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos"
Nesta tão única viagem
tantas vezes sem remos
muitas outras sem rumos
Entre a brisa e a tormenta
Fomos tantas marés!...
"24 de fevereiro" 

E por vezes ... David Mourão Ferreira

E por vezes as noites duram meses 
E por vezes os meses oceanos 
E por vezes os braços que apertamos 
nunca mais são os mesmos    E por vezes 

encontramos de nós em poucos meses 
o que a noite nos fez em muitos anos 
E por vezes fingimos que lembramos 
E por vezes lembramos que por vezes 

ao tomarmos o gosto aos oceanos 
só o sarro das noites      não dos meses 
lá no fundo dos copos encontramos 

E por vezes sorrimos ou choramos 
E por vezes por vezes ah por vezes 
num segundo se evolam tantos anos 

David Mourão-Ferreira,   

"24 fevereiro, 1927  /  16 junho,1996 "  

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

lÁGRIMA --- cARLOS DE oliveira

LÁGRIMA
A cada hora
o frio
que o sangue leva ao coração 
nos gela como o rio
do tempo aos derradeiros glaciares
quando a espuma dos mares
se transformar em pedra.
Ah no deserto
do próprio céu gelado
pudesses tu suster ao menos na descida
uma estrela qualquer
e ao seu calor fundir a neve que bastasse
à lágrima pedida
pela nossa morte.
CARLOS de OLIVEIRA

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O vento da vida PABLO Neruda


O vento da vida pôs-te ali. 
A princípio não te vi: não soube que ias comigo, 
até que as tuas raízes atravessaram o meu peito, 
uniram-se aos fios do meu sangue, 
falaram pela minha boca, 
floresceram comigo.
Pablo Neruda

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Cesário Verde OH mantos de veludo

(...............................................................
"Ó mantos de veludo esplêndido e sombrio,
Na vossa vastidão posso talvez morrer!
Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio 
E quero asfixiar-me em ondas de prazer. )"



 'O Livro de Cesário Verde'

VIAGEM --- MIGUEL TORGA

   VIAGEM
É  o vento que nos leva
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal. 
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...
Miguel TORGA

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Camilo Pessanha ----Floriram por engano as ROSAS BRAVAS




Floriram por engano as rosas bravas 
No Inverno: veio o vento desfolhá-las... 
Em que cismas, meu bem? Porque me calas 
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!... 
Onde vamos, alheio o pensamento, 
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento 
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve, 
Surda, em triunfo, pétalas, de leve 
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu! 
Quem as esparze — quanta flor! —, do céu, 
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

CAMILO PESSANHA

quarta-feira, 17 de junho de 2015

António Fonseca Soares --- Conta e Tempo


                                    CONTA E TEMPO

                      Deus pede estrita conta de meu tempo.
                      E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta.
                      Mas, como dar, sem tempo, tanta conta,
                      Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

                      Para dar minha conta feita a tempo,
                      O tempo me foi dado, e não fiz conta.
                      Não quis, sobrando tempo, fazer conta.
                      Hoje, quero fazer conta, e não há tempo.

                      Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
                      Não gasteis vosso tempo em passatempo.
                      Cuidai, enquanto é tempo, em fazer conta!

                      Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
                      Quando o tempo chegar, de prestar conta
                      Chorarão, como eu, o não ter tempo...

 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

O essencial é saber ver

"O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender"

quarta-feira, 27 de maio de 2015

O Beijo ---- Alexandre O´Neill

O Beijo
Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.
Donde teria vindo! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?
É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.
E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...
Alexandre O´Neill

terça-feira, 26 de maio de 2015

Alexandre O' Neill Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam 
Como se tivessem boca. 
Palavras de amor, de esperança, 
De imenso amor, de esperança louca. 

Palavras nuas que beijas 
Quando a noite perde o rosto; 
Palavras que se recusam 
Aos muros do teu desgosto. 

De repente coloridas 
Entre palavras sem cor, 
Esperadas inesperadas 
Como a poesia ou o amor. 

(O nome de quem se ama 
Letra a letra revelado 
No mármore distraído 
No papel abandonado) 

Palavras que nos transportam 
Aonde a noite é mais forte, 
Ao silêncio dos amantes 

Alexandre O´Neill

domingo, 24 de maio de 2015

"Manter-me ligada à vida" --- maria josé franca

"Manter-me ligada à Vida que irrompe à minha volta. Permitir que a felicidade me inunde e caminhar em direção a braços que se abrem. Pedir à Vida mais Vida."       Maria José Franca

Renoir ---Baile do Moulin de la Galette


bAILE do MOULIN de LA GALETTE

Primeiro baile de uma vida
(…)
Isto já faz muito tempo, mas não parece.
Ainda a vejo naquela mesa escondendo as mãos.
Foi um encontro marcado por algo maior.
Nas asperezas das mãos, a maciez do amor.
Eu, que sequer sabia dançar, valsei com ela.
Foi capaz de me conduzir à vida plena de sonhos.
Foi naquele baile, nosso primeiro, que de facto, renascemos.
Jossan Karsten/Escritor
- Baile no Moulin de la Galette, de Pierre-Auguste Renoir, é uma pintura do século XIX que pode ser encontrada no charmoso Museu d'Orsay, em Paris. Uma das primeiras obras-primas do Impressionismo