segunda-feira, 21 de março de 2016

ALexandre O´ Neill

AZUL AR
azul mais azul que todo o azul do mar
azul mais azul que todo o azul do mundo
que azul tão azul tinha
ali o azul do céu
para onde azulou o passarinho meu
ALEXANDRE O' NEILL

Afonso Duarte "Cobrem-me as fontes já cabelos brancos"

CABELOS BRANCOS
Cobrem-me as fontes já cabelos brancos,
Não vou a festas. E não vou, não vou.
Vou para a aldeia, com os meus tamancos, 
Cuidar das hortas. E não vou, não vou.
Cabelos brancos, vá, sejamos francos,
Minha inocência quando os encontrou
Era um mistério vê-los: Tive espantos
Quando os achei, menino, em meu avô.
Nem caiu neve, nem vieram gelos:
Com a estranheza ingénua da mudança,
Castanhos remirava os meus cabelos;
E, atento à cor, sem ter outra lembrança,
Ruços cabelos me doía vê-los ...
E fiquei sempre triste de criança.
AFONSO DUARTE

Maria do Rosário Pedreira --- " de tarde viera alguém com flores"

"De tarde viera alguém com flores..."
"De tarde viera alguém com flores - lírios,
jacintos, narcisos, despedidas - a a porta ficara
aberta desde então. Agora as traças ciciavam
lá fora numa alegria turva em redor de uma
lâmpada; e, sobre o banco do alpendre, jazia um
livro aberto na mesma página fazia quase um dia.
Batia-me nos pulsos uma vida vencida; e, mesmo
que a terra apenas aguardasse o fulgor da manhã
para chamar pelo teu corpo, tive a certeza de que
era sobre o meu que a noite eternamente se abatia"
(Maria do Rosário Pedreira)

sexta-feira, 18 de março de 2016

Amigo Alexandre O' Neill

Amigo
Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».
«Amigo» é um sorriso 
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.
«Amigo» é a solidão derrotada!
«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa
ALEXANDRE O' NEILL

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Fernando Pessoa ----- SEGUE o teu DESTINO




Segue o teu destino
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

..................................

Fernando Pessoa

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Pablo Neruda ---- O vento

O vento da vida pôs-te ali. 
A princípio não te vi: não soube que ias comigo, 
até que as tuas raízes atravessaram o meu peito, 
uniram-se aos fios do meu sangue, 
falaram pela minha boca, 
floresceram comigo.
Pablo Neruda

Carlos Drummond Não há falta na ausencia

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus
[braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade, in 'O Corpo'

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

No barco sem ninguém... David Mourão Ferreira

[ David Mourão Ferreira, que faria anos...]
'No barco sem ninguém, anónimo e vazio, 
ficámos nós os dois, parados, de mão dada...
Como podem só dois governar um navio?
Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa...
Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem...
Aonde iremos ter?
— Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos"
Nesta tão única viagem
tantas vezes sem remos
muitas outras sem rumos
Entre a brisa e a tormenta
Fomos tantas marés!...
"24 de fevereiro" 

E por vezes ... David Mourão Ferreira

E por vezes as noites duram meses 
E por vezes os meses oceanos 
E por vezes os braços que apertamos 
nunca mais são os mesmos    E por vezes 

encontramos de nós em poucos meses 
o que a noite nos fez em muitos anos 
E por vezes fingimos que lembramos 
E por vezes lembramos que por vezes 

ao tomarmos o gosto aos oceanos 
só o sarro das noites      não dos meses 
lá no fundo dos copos encontramos 

E por vezes sorrimos ou choramos 
E por vezes por vezes ah por vezes 
num segundo se evolam tantos anos 

David Mourão-Ferreira,   

"24 fevereiro, 1927  /  16 junho,1996 "  

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

lÁGRIMA --- cARLOS DE oliveira

LÁGRIMA
A cada hora
o frio
que o sangue leva ao coração 
nos gela como o rio
do tempo aos derradeiros glaciares
quando a espuma dos mares
se transformar em pedra.
Ah no deserto
do próprio céu gelado
pudesses tu suster ao menos na descida
uma estrela qualquer
e ao seu calor fundir a neve que bastasse
à lágrima pedida
pela nossa morte.
CARLOS de OLIVEIRA

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O vento da vida PABLO Neruda


O vento da vida pôs-te ali. 
A princípio não te vi: não soube que ias comigo, 
até que as tuas raízes atravessaram o meu peito, 
uniram-se aos fios do meu sangue, 
falaram pela minha boca, 
floresceram comigo.
Pablo Neruda

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Cesário Verde OH mantos de veludo

(...............................................................
"Ó mantos de veludo esplêndido e sombrio,
Na vossa vastidão posso talvez morrer!
Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio 
E quero asfixiar-me em ondas de prazer. )"



 'O Livro de Cesário Verde'

VIAGEM --- MIGUEL TORGA

   VIAGEM
É  o vento que nos leva
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal. 
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...
Miguel TORGA

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Camilo Pessanha ----Floriram por engano as ROSAS BRAVAS




Floriram por engano as rosas bravas 
No Inverno: veio o vento desfolhá-las... 
Em que cismas, meu bem? Porque me calas 
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!... 
Onde vamos, alheio o pensamento, 
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento 
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve, 
Surda, em triunfo, pétalas, de leve 
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu! 
Quem as esparze — quanta flor! —, do céu, 
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

CAMILO PESSANHA

quarta-feira, 17 de junho de 2015

António Fonseca Soares --- Conta e Tempo


                                    CONTA E TEMPO

                      Deus pede estrita conta de meu tempo.
                      E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta.
                      Mas, como dar, sem tempo, tanta conta,
                      Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

                      Para dar minha conta feita a tempo,
                      O tempo me foi dado, e não fiz conta.
                      Não quis, sobrando tempo, fazer conta.
                      Hoje, quero fazer conta, e não há tempo.

                      Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
                      Não gasteis vosso tempo em passatempo.
                      Cuidai, enquanto é tempo, em fazer conta!

                      Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
                      Quando o tempo chegar, de prestar conta
                      Chorarão, como eu, o não ter tempo...