terça-feira, 30 de outubro de 2018

Miguel Torga ... Não tenhas medo... ouve

Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente, de coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar ao levantar,
ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza de que mal não te faz
E pode acontecer que te dê paz...
*************
Miguel Torga, Diário XIII

domingo, 28 de outubro de 2018

FERNANDO PESSOA ---- É BONITO SER AMIGO

FERNANDO PESSOA --- --- --- Não sei quantas almas tenho --- ---

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Miguel Torga ----- ---- Não tenhas medo

Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente, de coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar ao levantar,
ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza de que mal não te faz
E pode acontecer que te dê paz...

Miguel Torga   .....   

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Zé Franca ---- Celebração da AMIZADE

Celebração da amizade. No face, há cinco anos, nas vidas há mais de 30. Recordo a primeira vez que te encontrei: estavas com a tua filha, eu ia com a tua prima Fernanda, à esquina da rua da livraria Martins (saudosa), com a Praça Rodrigues Lobo. Depois, na finalização da licenciatura, fui a tua casa por causa de uns apontamentos de Latim. No decurso da nossa profissão, e durante uns concursos de professores, foste a minha casa, na altura na av. Marquês de Pombal. Também durante o nosso estágio de dois anos, partilhámos alegrias e tristezas, trabalhos e matéria de testes naquelas disciplinas áridas que éramos obrigadas a frequentar. Estudámos em frente ao teu jardim. Chorámos olhando o fogo da tua lareira, quando a tristeza bateu à tua porta. Passámos serões juntas depois que fui viver para o teu prédio, há 22 anos. Partilhámos angústias em preparações de almoços de Natal, eu a correr escada abaixo para te e me socorrer nalgum pormenor. Fui ternamente apelidada por ti de "frango voador" quando da tua operação à vesícula, com as sopinhas que te levava, acabadinhas de fazer (mimos, pois tu estavas bem amparada, felizmente). Agora dás - me tu umas deliciosas sopinhas quando chego de Lisboa. Chás, bolinhos.... e as pataniscas de bacalhau!!!!! Lena, Leninha, amiga maravilhosa, bem hajas por existires!

sábado, 9 de junho de 2018

Alberto Caeiro ....... NUM MEIO DIA de FIM de PRIMAVERA

ALBERTO CAEIRO ---Num meio-dia de fim de Primavera....
Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se longe.
(..............................)
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

domingo, 27 de maio de 2018

David Mourão Ferreira ..... foi apenas um desgosto

(.....................vai dar à tua rua… Ai de mim, que nem pressinto a cor dos ombros da Lua! Talvez houvesse a passagem de uma estrela no teu rosto. Era quase uma viagem: foi apenas um desgosto. É tão negro o labirinto que vai dar à tua rua… Só o fantasma do instinto na cinza do céu flutua. Tens agora a mão fechada; no rosto, nenhum fulgor. Não foi nada, não foi nada: podia ter sido amor. 
David Mourão-Ferreira

ALEXANDRE O´ NEILL --- ----- AMIGO ---

Amigo
Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».
«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.
«Amigo» é a solidão derrotada!
«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!
ALEXANDRE O´NEILL

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Fernando PESSOA ----------- --------- qUANDO ESTOU SÓ

Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.
E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.
Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por coisa esquecida.
Fernando Pessoa

quarta-feira, 14 de março de 2018

No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural -
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
Alberto Caeiro

Alberto Caeiro

No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural -
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
Alberto Caeiro

sábado, 3 de março de 2018

Ricardo Reis ----- segue o teu destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é maios ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós própios.
Suave é viver só
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Ricardo Reis

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------................................................................---- Mendonça-------------Deus não aparece ------ --------------------------------------------------------------------------------ToLentino de----rdadeiro de rezar: estende o teu corpo ao longo do barco que desce silencioso o canal e deixa que as folhas mortas do bosque te cubram - José Tolentino Mendonça Deus não aparece no cinemaos


Deus não aparece no poema
apenas escutamos a sua voz de cinza
e assistimos sem compreender
a escuras perícias
A vida reclama inventários e detalhes
não a oiças
quando inutilmente perscruta as sequências
do seu trânsito
Só há um modo verdadeiro de rezar:
estende o teu corpo ao longo do barco
que desce silencioso o canal
e deixa que as folhas mortas do bosque
te cubram
- José Tolentino Mendonça

sexta-feira, 2 de março de 2018

alberto CAEIRO ---- VIVES, DIZES, NO PRESENTE

Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.
Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.
O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.
Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas
como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.
....................................................................................................)
ALBERTO CAEIRO

domingo, 25 de fevereiro de 2018

ALEXANDRE O`NEILL --- SEI OS TEUS SEIOS

Sei os teus seios. 
Sei-os de cor. 

Para a frente, para cima, 
Despontam, alegres, os teus seios. 

Vitoriosos já, 
Mas não ainda triunfais. 

Quem comparou os seios que são teus 
(Banal imagem) a colinas! 

Com donaire avançam os teus seios, 
Ó minha embarcação! 

Porque não há 
Padarias que em vez de pão nos dêem seios 
Logo p'la manhã? 

Quantas vezes 
Interrogaste, ao espelho, os seios? 

Tão tolos os teus seios! Toda a noite 
Com inveja um do outro, toda a santa 
Noite! 

Quantos seios ficaram por amar? 

Seios pasmados, seios lorpas, seios 
Como barrigas de glutões! 

Seios decrépitos e no entanto belos 
Como o que já viveu e fez viver! 

Seios inacessíveis e tão altos 
Como um orgulho que há-de rebentar 
Em deseperadas, quarentonas lágrimas... 

Seios fortes como os da Liberdade 
-Delacroix-guiando o Povo. 

Seios que vão à escola p'ra de lá saírem 
Direitinhos p'ra casa... 

Seios que deram o bom leite da vida 
A vorazes filhos alheios! 

Diz-se rijo dum seio que, vencido, 
Acaba por vencer... 

O amor excessivo dum poeta: 
"E hei-de mandar fazer um almanaque 
da pele encadernado do teu seio"
(Gomes Leal)

Retirar-me para uns seios que me esperam 
Há tantos anos, fielmente, na província! 

Arrulho de pequenos seios 
No peitoril de uma janela 
Aberta sobre a vida. 

Botas, botirrafas 
Pisando tudo, até os seios 
Em que o amor se exalta e robustece! 

Seios adivinhados, entrevistos, 
Jamais possuídos, sempre desejados! 

"Oculta, pois, oculta esses objectos 
Altares onde fazem sacrifícios 
Quantos os vêem com olhos indiscretos" 
(Abade de Jazente)

Raimundo Lúlio, a mulher casada 
Que cortejaste, que perseguiste
Até entrares, a cavalo, p'la igreja 
Onde fora rezar, 
Mudou-te a vida quando te mostrou 
("É isto que amas?") 
De repente a podridão do seio. 

Raparigas dos limões a oferecerem 
Fruta mais atrevida: inesperados seios... 

Uma roda de velhos seios despeitados, 
Rabujando, 
A pretexto de chá... 

Engolfo-me num seio até perder 
Memória de quem sou... 

Quantos seios devorou a guerra, quantos, 
Depressa ou devagar, roubou à vida, 
À alegria, ao amor e às gulosas 
Bocas dos miúdos! 

Pouso a cabeça no teu seio 
E nenhum desejo me estremece a carne. 

Vejo os teus seios, absortos 
Sobre um pequeno ser
alexandre o`neill