sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Miguel Torga ---- Requiem por MIM

«REQUIEM POR MIM
Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido de corpo
E tolhido da alma. Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio».

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Editora Mandarim---- Canção na PLENITUDE

Canção na plenitude
"Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)
O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias."
__Lya Luft
O texto acima foi extraído do livro "Secreta Mirada", Editora Mandarim - São Paulo, 1997, pág. 151.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Ternando Pessoa ---- chove há silencio


Chove. Há SilêncioChove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...
Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

domingo, 30 de dezembro de 2018

Vinicius de Morais ---------- Depois de tanto erro passado

Soneto do amigo

Enfim, depois de tanto erro passado 
Tantas retaliações, tanto perigo 
Eis que ressurge noutro o velho amigo 
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado 
Com olhos que contêm o olhar antigo 
Sempre comigo um pouco atribulado 
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano 
Sabendo se mover e comover 
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
Vinicius de Moraes , Antologia Poética. Rio de Janeiro

Natal AFRICANO

Natal Africano
Não há pinheiros nem há neve,
Nada do que é convendonal, 
Nada daquilo que se escreve
Ou que se diz... Mas é Natal.
Que ar abafado! A chuva banha
A terra, morna e vertical.
Plantas da flora mais estranha,
Aves da fauna tropical.
Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual.
Não há pastores nem ovelhas,
Nada do que é tradicional.
As orações, porém, são velhas
E a noite é Noite de Natal.

Sophia Mello Breyner Andersen --------- --------- -------- Voltar ali onde a verde rebentação da vaga


"Voltar ali onde
A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta a impetuosa
Juventude antiga -
Mas como sem os amigos
Sem a partilha o abraço a comunhão
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha mão "
Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Musa'

domingo, 23 de dezembro de 2018

MIGUEL TORGA ---- DEVIA SER NEVE

NATAL
Devia ser neve humana
A que caia no mundo
Nessa noite de amargura
Que se foi fazendo doce...
Um frio que nos pedia
Calor irmão, nem que fosse
De bichos de estrebaria.
Poesia :Miguel Torga

david mourão ferreira ----natal à beira rio

Natal à Beira-Rio

É o braço do abeto a bater na vidraça? 
E o ponteiro pequeno a caminho da meta! 
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa, 
A trazer-me da água a infância ressurrecta. 
Da casa onde nasci via-se perto o rio. 
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado! 
E o Menino nascia a bordo de um navio 
Que ficava, no cais, à noite iluminado... 
É noite de Natal, que travo a maresia! 
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra. 
E quanto mais na terra a terra me envolvia 
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra. 
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me 
à beira desse cais onde Jesus nascia... 
Serei dos que afinal, errando em terra firme, 
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia? 

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

MÁRIO QUINTANA ---- SEGUE O TEU DESTINO

Mário Quintana ~~~~~~~ OS PÁSSAROS
" Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo como de um alçapão.
Eles não têm pouso nem porto; alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhado espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti "...

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

RICARDO -- REIS --- SEGUE O TEU DESTINO

Segue o Teu Destino

Segue o teu destino, 
Rega as tuas plantas, 
Ama as tuas rosas. 
O resto é a sombra 
De árvores alheias. 

A realidade 
Sempre é mais ou menos 
Do que nos queremos. 
Só nós somos sempre 
Iguais a nós-proprios. 

Suave é viver só. 
Grande e nobre é sempre 
Viver simplesmente. 
Deixa a dor nas aras 
Como ex-voto aos deuses. 

Vê de longe a vida. 
Nunca a interrogues. 
Ela nada pode 
Dizer-te. A resposta 
Está além dos deuses. 

Mas serenamente 
Imita o Olimpo 
No teu coração. 
Os deuses são deuses 
Porque não se pensam. 

Ricardo Reis, in "Odes" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

FERNANDO PESSOA ------ Ó MAR SALGADO

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar! 

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

SOPHIA MELLO ANDERSEN --- AMIGO


 Amigo
 "Voltar ali onde
A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta a impetuosa
Juventude antiga -
Mas como sem os amigos
Sem a partilha o abraço a comunhão
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha mão "

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Musa'

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Mário Quintana ~~~~~~~ OS PÁSSAROS

" Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo como de um alçapão.
Eles não têm pouso nem porto; alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhado espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti "...
Mário Quintana

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

FERNANDO PESSOA --- AH! Mas se ela adivinhasse...

(.................................
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar, 
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!
.........................................)
Fernando Pessoa