sexta-feira, 16 de novembro de 2018

RICARDO -- REIS --- SEGUE O TEU DESTINO

Segue o Teu Destino

Segue o teu destino, 
Rega as tuas plantas, 
Ama as tuas rosas. 
O resto é a sombra 
De árvores alheias. 

A realidade 
Sempre é mais ou menos 
Do que nos queremos. 
Só nós somos sempre 
Iguais a nós-proprios. 

Suave é viver só. 
Grande e nobre é sempre 
Viver simplesmente. 
Deixa a dor nas aras 
Como ex-voto aos deuses. 

Vê de longe a vida. 
Nunca a interrogues. 
Ela nada pode 
Dizer-te. A resposta 
Está além dos deuses. 

Mas serenamente 
Imita o Olimpo 
No teu coração. 
Os deuses são deuses 
Porque não se pensam. 

Ricardo Reis, in "Odes" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

FERNANDO PESSOA ------ Ó MAR SALGADO

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar! 

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

SOPHIA MELLO ANDERSEN --- AMIGO


 Amigo
 "Voltar ali onde
A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta a impetuosa
Juventude antiga -
Mas como sem os amigos
Sem a partilha o abraço a comunhão
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha mão "

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Musa'

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Mário Quintana ~~~~~~~ OS PÁSSAROS

" Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo como de um alçapão.
Eles não têm pouso nem porto; alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhado espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti "...
Mário Quintana

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

FERNANDO PESSOA --- AH! Mas se ela adivinhasse...

(.................................
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar, 
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!
.........................................)
Fernando Pessoa

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Miguel Torga ... Não tenhas medo... ouve

Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente, de coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar ao levantar,
ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza de que mal não te faz
E pode acontecer que te dê paz...
*************
Miguel Torga, Diário XIII

domingo, 28 de outubro de 2018

FERNANDO PESSOA ---- É BONITO SER AMIGO

FERNANDO PESSOA --- --- --- Não sei quantas almas tenho --- ---

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Miguel Torga ----- ---- Não tenhas medo

Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente, de coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar ao levantar,
ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza de que mal não te faz
E pode acontecer que te dê paz...

Miguel Torga   .....   

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Zé Franca ---- Celebração da AMIZADE

Celebração da amizade. No face, há cinco anos, nas vidas há mais de 30. Recordo a primeira vez que te encontrei: estavas com a tua filha, eu ia com a tua prima Fernanda, à esquina da rua da livraria Martins (saudosa), com a Praça Rodrigues Lobo. Depois, na finalização da licenciatura, fui a tua casa por causa de uns apontamentos de Latim. No decurso da nossa profissão, e durante uns concursos de professores, foste a minha casa, na altura na av. Marquês de Pombal. Também durante o nosso estágio de dois anos, partilhámos alegrias e tristezas, trabalhos e matéria de testes naquelas disciplinas áridas que éramos obrigadas a frequentar. Estudámos em frente ao teu jardim. Chorámos olhando o fogo da tua lareira, quando a tristeza bateu à tua porta. Passámos serões juntas depois que fui viver para o teu prédio, há 22 anos. Partilhámos angústias em preparações de almoços de Natal, eu a correr escada abaixo para te e me socorrer nalgum pormenor. Fui ternamente apelidada por ti de "frango voador" quando da tua operação à vesícula, com as sopinhas que te levava, acabadinhas de fazer (mimos, pois tu estavas bem amparada, felizmente). Agora dás - me tu umas deliciosas sopinhas quando chego de Lisboa. Chás, bolinhos.... e as pataniscas de bacalhau!!!!! Lena, Leninha, amiga maravilhosa, bem hajas por existires!

sábado, 9 de junho de 2018

Alberto Caeiro ....... NUM MEIO DIA de FIM de PRIMAVERA

ALBERTO CAEIRO ---Num meio-dia de fim de Primavera....
Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se longe.
(..............................)
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

domingo, 27 de maio de 2018

David Mourão Ferreira ..... foi apenas um desgosto

(.....................vai dar à tua rua… Ai de mim, que nem pressinto a cor dos ombros da Lua! Talvez houvesse a passagem de uma estrela no teu rosto. Era quase uma viagem: foi apenas um desgosto. É tão negro o labirinto que vai dar à tua rua… Só o fantasma do instinto na cinza do céu flutua. Tens agora a mão fechada; no rosto, nenhum fulgor. Não foi nada, não foi nada: podia ter sido amor. 
David Mourão-Ferreira

ALEXANDRE O´ NEILL --- ----- AMIGO ---

Amigo
Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».
«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.
«Amigo» é a solidão derrotada!
«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!
ALEXANDRE O´NEILL

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Fernando PESSOA ----------- --------- qUANDO ESTOU SÓ

Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.
E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.
Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por coisa esquecida.
Fernando Pessoa

quarta-feira, 14 de março de 2018

No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural -
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
Alberto Caeiro