sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Outono MIGUEL TORGA

Outono
Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor 
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.
Miguel Torga

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Marta Monteiro Oliveira ---- S: Pedro de Moel



S. Pedro de Moel

Hoje fui visitar-te. As saudades eram mais que muitas, estavas ali intacta como se estivesses à espera que eu voltasse. Sempre que penso em ti fico com borboletas na barriga e sempre que falo de ti enches-me de orgulho. Mas a verdade é que te deixamos sempre que o frio se aproxima e parece que nos esquecemos daquilo que és para nós, tenho medo que aches que não te levamos no coração. Eu levo, e sei que os melhores também. 
Mas sempre que voltamos tratas-nos bem, bem de mais. Recebes-nos com o teu cheiro a maresia que nos entra casa a dentro e nos faz sentir-te nos nossos pulmões, cada vez que inspiro parece que ganho 10 anos de vida. Fazes-nos bem, fazes-nos muito bem.
Hoje fui visitar-te e continuas a praia mais bonita de todas, é tão bom pensar que nunca vais mudar e que vais ser para sempre o melhor sítio do mundo. É bom ver que o mar continua gelado e turbulento, que os crepes com Nutella do Iceberg continuam quentinhos e saborosos, é bom ver que o farol continua a dar luz e que a cacimba ainda não parou de cair. Que o café do Sr. António continua a ser 1,5€, e que casmurro que ele é, e que os bifes do João ainda são de comer e chorar por mais. É bom ver-te assim. Obrigada por me dares certezas que daqui a uns anos vou poder partilhar um bocadinho de ti com os meus filhos, mostrar-lhes todos os teus recantos e todos os teus segredos.

Hoje fui visitar-te e senti que ainda gostas de mim...

Marta Monteiro Oliveira                   Nota  --  este texto  foi escrito pela Marta depois de uma visita a S. Pedro  a 20 de dezembro de 2016

David Mourão Ferreira ---- Era uma noite apressada

Era uma noite apressada 
depois de um dia tão lento. 
Era uma rosa encarnada 
aberta nesse momento. 
Era uma boca fechada 
sob a mordaça de um lenço. 
Era afinal quase nada, 
e tudo parecia imenso! 

Imensa, a casa perdida 
no meio do vendaval; 
imensa, a linha da vida 
no seu desenho mortal; 
imensa, na despedida, 
a certeza do final. 

Era uma haste inclinada 
sob o capricho do vento. 
Era a minh'alma, dobrada, 
dentro do teu pensamento. 
Era uma igreja assaltada, 
mas que cheirava a incenso. 
Era afinal quase nada, 
e tudo parecia imenso! 

Imensa, a luz proibida 
no centro da catedral; 
imensa, a voz diluída 
além do bem e do mal; 
imensa, por toda a vida, 
uma descrença total! 

MÁRIO ANDRADE --- VALIOSO TEMPO

ALIOSO TEMPO" ---- MÁRIO ANDRADE --
"Contei meus anos
E descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente
Do que já vivi até agora
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras ele chupou displicente,
mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
Cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis,
para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias
que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas
que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigam pelo
Majestoso cargo de secretário geral do coral.
As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
Minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
Muito humana; que sabe rir de seus tropeços,
não se encanta com triunfos,
não se considera eleita antes da hora,
não foge da sua mortalidade.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
Oessencial faz a vida valer a pena "
Mário Andrade

TERROR DE TE AMAR SOPHIA de MELLO ANDRESEN

Terror de Te Amar

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo 

Mal de te amar neste lugar de imperfeição 
Onde tudo nos quebra e emudece 
Onde tudo nos mente e nos separa. 

Que nenhuma estrela queime o teu perfil 
Que nenhum deus se lembre do teu nome 
Que nem o vento passe onde tu passas. 

Para ti eu criarei um dia puro 
Livre como o vento e repetido 
Como o florir das ondas ordenadas. 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Obra Poética” 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Mia Couto ..... OS EXCESSOS do meu IRMÃO

    Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
    Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.
    Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
    Depois a criança vem mostrar e...
    Ver Mais
    GostoMostrar mais reações
    Comentar
    Comentários
    Maria Helena Serrador partilhou uma memória.
    14 h
    Nani, Fernanda Sal Monteiro, aceitando o teu desafio passo a citar os 10 livros que, entre muitos outros, me proporcionaram muitas e muitas horas de encantament...
    Ver Mais
    GostoMostrar mais reações
    Comentar
    Comentários
    GostoMostrar mais reações
    Comentar
    Comentários
    Eugénia Ferrari Deve estar frio.
    GostoMostrar mais reações
    Responder22 h
    Eliminar
    GostoMostrar mais reações
    Comentar
    Comentários
    José Nunes Sousa "Ibiscus maravilhosus"
    GostoMostrar mais reações
    ResponderOntem às 0:59
    Gerir
    GostoMostrar mais reações
    Responder21 hEditado
    Gerir
    Maria Helena Serrador Obrigada !!!
    GostoMostrar mais reações
    Responder14 h
    Gerir
    Agora mesmo... liiiindo!!!
    GostoMostrar mais reações
    Comentar
    Comentários
    Agorinha....... S.Pedro... lindíssimo...
    GostoMostrar mais reações
    Comentar
    Comentários
    GostoMostrar mais reações
    Responder16/9 às 21:48
    Gerir
    GostoMostrar mais reações
    Comentar
    Comentários
    Maria José Franca Lindas, Lena. Beijinho.
    GostoMostrar mais reações
    Responder16/9 às 10:16
    Gerir
    Maria Helena Serrador Cestá tudo bem contigo????
    GostoMostrar mais reações
    Responder16/9 às 10:21
    Gerir
    GostoMostrar mais reações
    Responder16/9 às 10:24
    Gerir
    Fernanda Sal É das tuas ? Muito bonita.
    GostoMostrar mais reações
    Responder16/9 às 11:16
    Gerir
    Maria Helena Serrador Siiiim .... Única !!!...
    GostoMostrar mais reações
    Responder16/9 às 23:10
    Gerir
    (.........................
    Pudesse eu ser tu
    E em tua saudade ser a minha própria espera.
    Mas eu deito-me em teu leito ...
    Ver Mais
    GostoMostrar mais reações
    Comentar
    Comentários
    Maria Helena Albernaz Otto LINDO. Já tinha saudades dos teus belos poemas. 🌷💞😘
    GostoMostrar mais reações
    Responder13/9 às 23:11
    Gerir
    Maria Helena Albernaz Otto Que gostas de poesia já tinha percebido e é um bom e excelente gosto, que nem todos apreciam.
    GostoMostrar mais reações
    Responder13/9 às 23:16
    Gerir
    Maria Helena Serrador Cada um tem o seu gosto... mas se ouvires na antena 2 é difícil resistir... programa de Luís Caetano.... é muito BOOOM
    GostoMostrar mais reações
    Responder13/9 às 23:17
    Gerir
    Para explicar
    os excessos do meu irmão
    a minha mãe dizia:
    está na mudança de idade.
    Na altura,
    eu não tinha idade nenhuma
    e o tempo era todo meu.
    Despontavam borbulhas
    no rosto do meu irmão,
    eu morria de inveja
    enquanto me perguntava:
    em que idade a idade muda?
    Que vida,
    escondida de mim, vivia ele?
    Em que adiantada estação
    o tempo lhe vinha comer à mão?
    Na espera de recompensa,
    eu à lua pedia uma outra idade.
    Respondiam-me batuques
    mas vinham de longe,
    de onde já não chega o luar.
    Antes de dormirmos
    a mãe vinha esticar os lençóis
    que era um modo
    de beijar o nosso sono.
    Meu anjo, não durmas triste, pedia.
    E eu não sabia
    se era comigo que ela falava.
    A tristeza, dizia,
    é uma doença envergonhada.
    Não aprendas a gostar dessa doença.
    As suas palavras
    soavam mais longe
    que os tambores nocturnos.
    O que invejas, falava a mãe, não é a idade.
    É a vida
    para além do sonho.
    Idades mudaram-me,
    calaram-se tambores,
    na lua se anichou a materna voz.
    E eu já nada reclamo.
    Agora sei:
    apenas o amor nos rouba o tempo.
    E ainda hoje
    estico os lençóis
    antes de adormecer.
    MIA COUTO